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Anywhere, Minas Gerais, Brazil
Espaço para reinvenção de mim mesmo. Poemas soltos, fragmentos, memórias. Jogo de palavras, labirinto faminto e ausência de tudo. Espaço para reunir reflexões, dar detalhes, ocultar... e revelar. Vida em Palavras!!!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Cotidiano I - Listas

    O despertador faz seu trabalho, e eu reclamo por mais alguns minutos na cama quente.


      Jogo meu corpo para fora e meus pés tocam o chão frio, esperando ordem. Caminho ainda sem noção, enquanto esfrego os olhos. O controle remoto me liga com outra realidade, pessoas sempre sorrindo e dispostas a lhe oferecer uma nova vida, basta fazer um depósito bancário ou ligar para esse telefone que aparece na TV. Boa Sorte!!!




      A água fria da pia me acorda para a realidade habitual, onde dinheiro se consegue trabalhando, onde o amor não é cego, cartas de amor são contas atrazadas, fixadas na geladeira.




      Aqueço o leite, duas colheres de chocolate em pó, e agora em ordem alfabética, os compromissos vão surgindo na mente. Engraçado que eles crescem e seu tempo diminui, engraçado também que você anota, faz lembretes e realiza 2 ou 3 tarefas de uma lista de 8 e mesmo assim, sua vida segue sem grandes prejuizos. Damos tanto valor para certas coisas e depois, sem querer, percebemos que podemos viver sem elas ou corremos para desejar outras "melhores" e "maiores." Um mundo de listas e metas a cumprir!!!




      Na rua, sigo para bater o ponto, encarar um novo dia de trabalho, fazendo as mesmas coisas, olhando os velhos colegas insistindo nos mesmos erros, com as mesmas perguntas e os mesmos programas para o final de semana, mesmo sendo começo de uma.




      A vida passa a ser mais divertida quando você conhece o otimismo, se esbarra no improviso, respira devagar e acha dinheiro esquecido no bolso da jaqueta.




     Meio-dia, o cheiro da fome marca tarefas matinais vencidas ou adiadas. Você segue para aquele restaurante usual, sabendo que hoje vão servir arroz, feijão, salada, batata frita e 3 opções de carne. Termina tudo em 30 minutos, encontra tempo para pagar alguma conta, ler alguma matéria chamativa na revista da banca da esquina, atravessar a rua e voltar ao segundo tempo daquele trabalho que você sempre quer deixar, mas nunca procura outro melhor.

      E assim, um pouco mais cansado, começa a desejar que o relógio ande mais depressa ou que algum incidente aconteça e o faça ir mais cedo para casa... mas nada acontece e você espera, realizando suas tarefas de forma mais lenta, sabendo que pode deixar para amanhã algumas demandas da lista do dia.



      6 horas, você solta a mentirosa frase, porém habitual: "Nossa, como o tempo voou"!!!...
Junta suas coisas e sai depressa, com aquele medo aparente, porém não revelado de que alguem ou algo aconteça e o faça ficar 1 hora a mais no trabalho.



     Chegando em casa, joga as chaves na mesa, tira 50% de sua roupa de trabalho e da cozinha enquanto prepara algo para comer, escuta as promessas e propagandas de uma vida diferente da sua, brilhando na tela da TV.

Eixo

      

       Hoje decidi não sair de casa, está tão frio...

       Aqui deitado pensando na vida que passou e naquela que deveria ser... Acho que essa fome insatisfeita não me deixará em paz, fico desenhando pessoas, lugares e destinos que não conheci... e eu tento, tento mas não consigo evitar essa chama queimando dentro de mim.


       Hoje, eu não quero ver o mundo lá fora, existe um universo íntimo que pede atenção, repleto de acertos a fazer... resgates, velhas mágoas para revêr, conceitos antigos que me impedem de seguir adiante... e eu fico pensando no que deveria fazer, mas não faço qualquer movimento para sair desse estado.


       Ouço pessoas dizendo, sorrindo, vivendo um mundo tão diferente do meu e questiono todos esses sorrisos, todo esse entusiasmo externo, e por fim, sempre termino meu dia achando ser deficiente de alguma força que me faça ser igual a eles.


       O que há de errado comigo? Alguns amigos dizem que me preocupo demais, sempre apressando, queimando etapas, esperando por coisas e eventos que não sei se vão acontecer, sempre murmurando palavras de fé sem ter, olhando para um céu sem deus...


      Aquela idéia de viver cada dia como se fosse o último é tão distante, pois sempre vejo o amanhã acenando para mim, cobrando e exigindo mais esforços, mais cuidados, mais paciência. E a vida segue sua receita, jogando areia nos olhos, oferecendo e tirando nesse jogo cruel de escolhas e renúncias.


      Se eu não entendo esse complexo, como poderia explicar, só sei que tento e tento me salvar desse mar revolto de sentimentos desconexos, desse up and down, mas quanto mais mergulho, não toco o fundo.


      É dificil achar o eixo quando está nesse processo de mudança, de desejos e medos, sentimentos em ebuliçao, quando o pequeno se torna grande, o certo em duvidas, abraçado pela melâncolia, amaldiçoado por um destino que você não quer.